domingo, 1 de agosto de 2010

FLIP 2010: Por que homenagear Gilberto Freyre?

Homenagear Freyre

dezembro 15, 2009 por Flavio Moura


Justificar a homenagem da FLIP é sempre um malabarismo retórico. No fundo ela não precisa de explicação, já que o filme costuma ser muito parecido: em todos os casos, está em jogo a celebração da obra de um autor canônico da tradição brasileira.

Claro que o alcance crítico é limitado. Como são nomes de grande porte, a quantidade de seminários e colóquios já realizados a respeito deles, a riqueza da fortuna crítica, o conjunto, enfim, do que já se disse a respeito está bem acima do que se pode fazer num evento para grande público como a FLIP.

Por isso não tem como não soar artificial sempre que a curadoria fala em “redimensionar” a figura do homenageado, ou ainda em “resgatar” a importância da obra ou qualquer platitude semelhante.

Importa mesmo o fato de que num país como o Brasil, sempre que há ocasião para falar de autor importante – e a FLIP é uma excelente ocasião –, alguma contribuição terá sido dada.

Alguns critérios são respeitados para a escolha do nome. Neste ano, mais que uma efeméride ou movimento editorial importante, o que motivou a decisão foi o momento particular que vive o Brasil. Pareceu à curadoria que era preciso escolher escritor que tivesse feito da reflexão sobre o país a razão de ser da sua obra. Nesse contexto, há poucos como Gilberto Freyre.

A idéia é trazer para o primeiro plano o debate sobre os rumos do Brasil. A tentativa de fixar uma “identidade brasileira”, a volta do ufanismo nesses últimos anos de era Lula, as aspirações de protagonismo do país no cenário internacional, todos esses temas me parecem dignos de discussão no âmbito dessa homenagem.

Já faz algum tempo, desde o centenário de Gilberto Freyre, em 2000, que trabalhos de relevo vêm sendo publicados sobre o autor e que o debate em torno da obra está aceso. A homenagem da FLIP é mais uma ação nesse cenário bem mais amplo de recuperação e reavaliação de seu legado.

Pode haver antipatia por causa das posições políticas que Freyre assumiu nos anos 1960 e 1970. Vale também perguntar se o elogio que ele faz da sociedade patriarcal combina com o que se deve esperar de um pensador progressista. As críticas procedem e as fragilidades são muito evidentes para não ser debatidas.

Mas o mais importante de sua contribuição não está em xeque. A mestiçagem vista como vantagem, e não defeito, a ênfase sobre a cultura em detrimento da raça, a inovação ao abordar temas da vida cotidiana e íntima (antecipando procedimentos que a história viria a privilegiar nas décadas seguintes), as virtudes inegáveis de prosador, tudo isso está consolidado acima dessas resistências.

Que seja figura controversa é traço que só acrescenta interesse à homenagem.

In: www.flip.org.br

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